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sexta-feira, 19 de julho de 2013

A TEMPESTADE OU O LIVRO DOS DIAS- LEGIÃO URBANA, 1996 (EMI).


"O Brasil é uma república federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus", esta citação de Oswald de Andrade, substitui as tradicionais frases "Urbana Legio Omnia Vincit" (Legião Urbana a tudo vence) e "Ouça no volume máximo", sempre presentes em todos os álbuns da Legião, a razão da insólita mudança  só foi compreendida mais tarde com a notícia da morte do líder da banda, Renato Russo. “A Tempestade ou o livro dos dias” é a carta de despedida do maior nome do Rock Nacional dos anos oitenta.

Depressivo e melancólico, a Legião despeja tristeza, mágoa, solidão e angustia em quase todas as faixas do disco. Ainda que tente passar uma mensagem de otimismo e esperança, os sentimentos de abandono e revolta falaram mais alto na percepção criativa do compositor Renato Russo, que respinga suas dores físicas e emocionais nas canções do álbum.

 A principio a ideia era a de se fazer um álbum duplo com as canções que sobraram para o disco posterior, “Uma outra estação”, que foi lançado após a morte de Renato Russo.

O líder da legião, por alguma razão desconhecida, com exceção de em “A via láctea”, não quis gravar a voz definitiva nas faixas, ficando apenas a voz guia. Apesar de imperceptíveis as diferenças técnicas, é provável que ele tenha tido a intenção de sublinhar a canção que revelava a sua real condição de saúde. A espera da morte: “um anjo triste perto de mim”, “E quando chegar a noite cada estrela parecerá uma lágrima”; a indignação ante a falta de esperança: “ quando tudo está perdido sempre existe uma luz, mas não me diga isso.”;  a ironia ante a sensação de abandono:E essa febre que não passa, e meu sorriso sem graça, não me dê atenção mais obrigado por pensar em mim”, e a angústia revelada: “Queria ser como outros e ri das desgraças da vida ou fingir está sempre bem, vê a leveza das coisas com humor”.
Em “Dezesseis”,Renato Russo fala em tom moralista aos jovens que desperdiçam suas vidas, contando a estória  de um adolescente que morre em uma acidente suicida durante um pega.Sugere um misto de arrependimento pelos  excessos  com a tristeza e a saudade dos que ficam.
“Leila” é uma canção do cotidiano, fala do dia-a-dia de uma mulher independe que lida com seus trabalhos e cuida sozinha dos filhos, algumas sacadas do Renato Russo, dão o toque de humor que tempera com leveza o ar depressivo do disco: “E você diz daquele seu jeito:- Ai, eu preciso de um homem! - E eu digo:- Ah, Leila, eu também! -  E a gente ri.”
“Longe do meu lado”, uma parceria do Renato Russo com o legionário Marcelo Bonfá, é a mais perfeita tradução da decepção amorosa e da dificuldade de se recompor os sentimentos após uma perda afetiva. A paixão é retratada com um algoz da alma, estar apaixonado uma opção a ser evitada: “A paixão já passou em minha vida/Foi até bom, mas ao final deu tudo errado/E agora carrego em mim/Uma dor triste, um coração cicatrizado/E olha que tentei o meu caminho/Mas tudo agora é coisa do passado/Quero respeito e sempre ter alguém/Que me entenda e sempre fique a meu lado/Mas não, não quero estar apaixonado”.
“Soul Persival”, parceria do Renato Russo com a cantora e compositora Mariza Monte, demonstra ser mais uma canção psicossomática da doença terminal do Renato Russo, a dor física e sofrimento reaparecem em versos como “Estive cansado/ Meu orgulho me deixou cansado/Meu egoísmo me deixou cansado/Minha vaidade me deixou cansado/Não falo pelos outros/Só falo por mim/ninguém vai me dizer o que sentir.”
A belíssima “Quando você voltar” é a faixa redentora do álbum, o desgaste da relação afetiva que leva a brigas intermináveis se dissolve em versos de reconciliação, em meio a tanta angústia e tristeza, a esperança do amor que pode renascer é uma espécie de alívio perante a dor e a solidão: “Vai, se você precisa ir, não quero mais brigar essa noite {...} E quando você voltar tranque o portão, feche as janelas, apague a luz e saiba que eu te amo.”
Melancólico, Renato Russo se despede dos amigos e da família, em “Esperando por mim”, agradece pela solidariedade e pelo apoio, guarda os bons momentos e pede respeito pela sua memória: “Hoje à tarde foi um dia bom, sai prá caminhar com meu pai/ Conversamos sobre coisas da vida/ E tivemos um momento de paz/É de noite que tudo faz sentido/No silêncio eu não ouço meus gritos/ E o que disserem meu pai sempre esteve esperando por mim/ o que disserem minha mãe sempre esteve esperando por mim/ E o que disserem meus verdadeiros amigos sempre esperaram por mim/ E o que disserem agora meu filho espera por mim/Estamos vivendo e o que disserem os nossos dias serão para sempre.”
Em “O livro dos dias” Renato Russo, lamenta seu definhamento e espera passivo a própria morte, questiona o pecado e o preconceito, e, em seu juízo final absorve a si mesmo: “Ausente o encanto antes cultivado/ Percebo o mecanismo indiferente/ Que teima em resgatar sem confiança/ A essência do delito então sagrado/ Meu coração não quer deixar meu corpo descansar/ E teu desejo inverso é velho amigo/ já que tenho sempre a meu lado {...} O indulto a ti tomasse como benção/ Não esconda a tristeza de mim/ Todos se afastam quando o mundo está errado/ Quando o que temos é um catálogo de erros/ Quando precisamos de um carinho, força e cuidado/ Esse é o livro das flores/ Esse é o livro do destino/ Esse é o livro de nossos dias/ Esse é o dia de nossos amores”.
A grande dificuldade em falar sobre um álbum da Legião e ter que escolher trechos das canções da banda, não há verso que se possa desprezar nas letras do Renato Russo, tudo é belo, tudo é profundo e tudo se completa.
Renato Russo partiu aos 36 anos, vítima da AIDS, doença que escondeu do público até o ultimo instante, A tempestade (a doença) e o livro dos dias (onde a vida está escrita), chegaram ao clímax, agora só restou a calmaria do repouso final. Em 11 de outubro de 1996, o Brasil se tornou um país cheio de arvores e de gente dizendo adeus  ao maior poeta do Rock nacional.

A Legião Urbana a tudo vence, ouça no volume máximo!!!


quinta-feira, 11 de julho de 2013

AS AVENTURAS DA BLITZ 1, 1982 (EMI-ODEON).




O apresentador Flávio Cavalcante, em rede nacional, parte um disco de vinil ao meio, joga na lixeira, e esbraveja “lixo, uma porcaria, isso não vale nada!”, tudo diante da banda que acabara de se apresentar: jovens com roupas coloridas e penteados esquisitos. A atitude, que nos parece bizarra hoje, fazia parte de um quadro do programa do apresentador; a Banda era a “Blitz”, formada por Evandro Mesquita, guitarra e voz; Fernanda Abreu e Macia Bulcão, vocais; Ricardo Barreto, guitarra; Antônio Pedro Fortuna, baixo; William “Billy”, teclados; e Lobão, bateria, substituído mais tarde por Juba, jovens cariocas recém saídos da trupe do “Circo voador”, alguns eram ex-integrantes do grupo revolucionário e despojado “Asdrúbal trouxe o trombone”, que tinha no elenco gente como Regina Casé, Luis Fernando Guimarães e Patrícia Pillar, e; o álbum era “As Aventuras da blitz 1”, primeiro trabalho da Banda. 
O que o Flávio Calvancante, que tinha como missão destruir midiaticamente as novas revelações da música, não sabia era que ali diante de seus olhos e despedaçado em suas mãos estava a semente, o embrião, do que seria o conceito de cultura pop e comportamento jovem que permearia no Brasil durante toda a década de oitenta.Contudo, a semente germinou, a “Blitz” se tornou um sucesso estrondoso, seria a referencia do “NEW WAVE”, ou “Nova Onda”, movimento que ditava o comportamento e a maneira de vestir dos jovens dos anos oitenta, e embalava as festinhas com o rock “mamão com açúcar”, e por outro lado, abriu as portas do mercado fonográfico para as bandas que já existiam e deram origem ao movimento Rock Brasil 80. Um medíocre ato de repressão foi o estopim da revolução musical que tomou conta do país na década de oitenta.

O álbum, que espantou e agradou a juventude de cara, tinha o gosto da novidade, a “Blitz” era diferente de tudo o que já se havia ouvido até então. Uma nova linguagem, um novo estilo musical, uma nova pegada e uma forma totalmente diferente de se escrever canções. As letras continham narrativas, contavam estórias, falavam de aventuras amorosas e picardias adolescentes, com linguagem teatral, dramatizavam as situações, havia diálogos dos personagens, etc.

As faixas “Você não soube me amar”, que narra um encontro casual entre um casal apaixonado que discute sobre batatas fritas e chopp e, “Mais uma de amor (Geme- geme)”, foram sucessos instantâneos. As faixas “Ela que morar comigo na lua” e “Cruel, cruel, esquizofrênico blues”, foram barradas pela Censura Federal, esta ultima por causa de um trocadilho com o “peru de natal”. O LP chegou nas lojas com as duas faixas inutilizadas por cortes de laminas. 
O fato é que a Blitz fez sua história acontecer e fez acontecer a história do rock nacional. Questões qualitativas a parte, foi uma das mais importantes bandas do Rock Nacional Oitenta, seu sucesso foi tanto que rendeu um especial na Globo: “Blitz contra o gênio do mal (1984), ” e até álbum de figurinhas. Toma Flávio Cavalcante!!!

quinta-feira, 4 de julho de 2013

O PAPA É POP – ENGENHEIROS DO HAVAII, 1990 (BMG).



Sendo o quinto álbum da banda gaúcha, “O Papa é pop”, foi o disco que definitivamente colocou os Engenheiros do Havaii, no hall das grandes bandas do Rock Nacional, ao lado da Legião Urbana, Titãs e Paralamas do Sucesso, vendendo entre 350 a 400 mil cópias, sendo até mesmo considerada a melhor banda do país, por algumas revistas especializadas. Fato surpreendente, considerando que, o Rock Nacional era regionalizado, e as maiores fatias do mercado eram partilhadas entre as bandas do Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília.

Com um som mais limpo, a banda assume uma sonoridade mais pop, inclui teclados e bateria eletrônica e toques mais suaves, na guitarra e no baixo. Assume um perfil mais comercial, rompendo com o estigma de banda de garagem, que as vezes a colocava na situação desagradável, de abrir shows, para bandas, que entendiam ser de menor qualidade, pelo fato delas terem mais prestígio e estarem melhor colocadas na mídia.
A capa, escapando do estilo underground das anteriores, mais pop do que nunca, é a clássica foto da banda no sofá, no melhor estilo ‘Simpsons’, marca a entrada espontânea dos Engenheiros no universo da cultura pop, sem aquela de “traidores do movimento”, que fundia a cabeça do pessoal punk.
A utilização das cores vermelha e preta é uma referência ao Clube de Regatas do Flamengo, considerada a maior torcida do Brasil, e por isso mesmo pop, e do Papa João Paulo II, ter vestido a camisa do mesmo, em sua visita ao Brasil em 1980. Ponto para a torcida do Flamengo.
A versão Vinil tem um lado chamado PAPA e um Lado chamado POP, e não contém a canção “Perfeita Simetria”, que só foi lançada na versão CD. Já o encarte do CD, contém uma foto do Pontífice João Paulo II, tomando chimarrão (ponto para os gaúchos), retirada do acervo pessoal, de Leonel Brizola, sendo a mesma gentilmente cedida pelo fotografo Carlos Contursi, autor da imagem, e pelo próprio Brizola. Ponto para os socialistas.
Na canção título, “O Papa é pop” os Engenheiros desfilam a dependência da sociedade de consumo em relação à cultura pop. “Todo mundo tá revendo o que nunca foi visto, todo mundo tá comprando os mais vendidos. É qualquer nota, qualquer notícia, páginas em branco, fotos coloridas, qualquer nova, qualquer notícia, qualquer coisa que se mova é um alvo e ninguém tá salvo...”
Já adotando o método “variações sobre o mesmo tema”, comum em toda a obra dos Engenheiros, junto as famosas frases de efeito, a canção “Perfeita Simetria” se utiliza da mesma melodia de o “Papa é pop”, o que não agrada em parte aos fãs. Aí é o próprio Humberto Gessinger, líder da banda que explica: “usar a mesma melodia não é falta de inspiração para novas composições, o caso é que sobrou inspiração para a mesma melodia”. De fato, “Perfeita Simetria” tem uma temática, mais pessoal: “O teu maior defeito talvez seja a perfeição, tuas virtudes talvez não tenham solução {...} Perdoa o que puder ser perdoado, esquece o que não tiver perdão e vamos voltar aquele lugar...”
“Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones” é a primeira gravação não autoral dos Engenheiros, foi também a primeira musica que o Gessinger, aprendeu a tocar no violão, e também foi muito tocada pela banda nos showmícios, que a mesma participava, tocando para o presidenciável Brizola nas eleições de 1989. 
A canção “O exército de um homem só” foi dividida em duas canções, ou será que são duas canções com o mesmo titulo? Bom isso exige um estudo mais aprofundado ao que estamos nos propondo, sabe-se apenas que foi inspirada na obra homônima de Moacyr Sciliar, e que a primeira parte trata invasão ao espaço aéreo soviético, por Mathias Rust, um aviador alemão que conseguiu aterrar na Praça Vermelha, com apenas dezenove anos de idade e, a segunda parte trata da tentativa de invasão ao espaço privado de uma enfermeira, quando o mesmo esteve na prisão.
Para quem curte mensagens subliminares essa é ótima: a faixa “Ilusão de ótica”, na versão do LP, quando o prato girava no sentido contrário, diz a lenda, onde se ouve as expressões: “Por que você roda assim? Eu não gosto que rode assim”, se ouvia: “Por que é que você está ouvindo isto ao contrário? O que você está procurando...”, e outras baboseiras, que podem ser interpretas como coisas satânicas. Nada pode ser mais pop do que isso!
“Pra ser sincero”, a balada romântica do disco, e mais bonita do ponto de vista estéstico, é um “chega pra lá”, ao bom e velho estilo do Rock in roll, com belas sacadas irônicas do Gessinger: “Pra ser sincero não espero de você mais do que educação... Não se sinta capaz de enganar quem não engana a si mesmo... Nós dois temos os mesmos defeitos, sabemos tudo a nosso repeito, somos suspeitos de um crime perfeito, mas crimes perfeitos não deixam suspeitos....”
Na faixa “a violência travestida faz seu trottoir” a referência a um bilhete suicida, daquele que se deixou embriagar pelo consumismo sem freio, o ultimo suspiro de quem tomou doses animalescas de cultura pop: “Tudo que ele deixou foi uma carta de amor pra uma apresentadora de programa infantil. Nela ele dizia que já não era criança, e que a esperança também dança como monstros de um filme japonês. Tudo que ele tinha era uma foto desbotada, recortada de revista especializada em vida de artista. Tudo que ele queria era encontrá-la um dia (todo suicida acredita na vida depois da morte). Tudo que ele tinha cabia no bolso da jaqueta. A vida quando acaba, cabe em qualquer lugar.”
Sim, tem também um pedido de desculpa ao Lulu Santos por Gessinger o ter acusado de fazer musica de entretenimento, coisa de gente pop mesmo!
Creio que você não vai mais ouvir este disco da forma que ouvia antes, desculpa ai, foi mal.

SEVERINO (PARALAMAS DO SUCESSO, 1994).



SEVERINO é mais um daqueles discos lançados dez anos à frente de seu tempo (tal como ocorreu com SELVAGEM?, 1986, também dos Paralamas), portanto são necessários pelo menos dez anos para uma melhor compreensão do mesmo.
SEVERINO, assim como SELVAGEM?, é um disco revolucionário, entretanto, este foi um sucesso de vendas e aquele não repercutiu tanto no mercado. Não que SELVAGEM? Tenha sido um disco mais comercial, mas o fato é que 1986 foi um ano mais aberto a novas idéias e revoluções. Imperava o pensar coletivo e o desejo de mudança, e SELVAGEM? Falava de um Brasil recém liberto da ditadura militar, com todos os vícios que a dita cuja poderia deixar em uma nação. Fazer com que o público sentisse orgulho de ser brasileiro, mesmo vivendo em um país cheio de contradições e misérias, foi o grande trunfo de SELVAGEM? que apesar de ter causado um certo espanto, todo mundo quis ouvir.
SEVERINO nasceu em uma outra época, quando o individualismo falava mais alto e os jovens só pensavam, como o alquimista de Paulo Coelho, em abrir caminhos para suas realizações pessoais, esquecendo-se de que são importantes para a construção de um mundo melhor para todos, para eles e para seus filhos. Não havia mais lugar para utopias, e sem idealismo não se faz revolução. As leis do mercado não permitiam que os infortúnios de uma nação de origens escravistas e subdesenvolvida fossem expostos ao público por uma banda. Ninguém estava a fim de pensar, principalmente nesse tipo de coisa.
SEVERINO não é um disco que agrada muito em uma primeira audição, não tem o mesmo suingue dos outros trabalhos dos Paralamas, e, por isso, assustaria até mesmo um fã desavisado do trio. O álbum tem como principal característica uma sonoridade no mínimo exótica, marcada com a inserção de instrumentos não convencionais como cano de PVC, latão de óleo, serrote e outros. Também conta com as participações especiais de Tom Zé, Linton Kwesi Johnson, Fito Paez, Brian May (guitarrista do Queen), Egberto Gismont e Reggae Philarmonic Orchestra.

Sua temática antropológica e social surge de uma reflexão sobre a constituição do homem (considerado universalmente) e sua inserção no meio ambiente (aqui, o Brasil dos degredados, dos retirantes, dos proletariados e dos Severinos). Este fato já se denuncia na capa, onde vemos o desenho de um homem envolvido pelos nomes de vários órgãos do corpo humano e com a legenda: "eu preciso destas palavras escritas" (aliás, não só a capa, porém, todo o material gráfico do álbum foi inspirado na obra de Arthur Bispo do Rosário, que ao morrer em 1989, em uma colônia, deixou um impressionante acervo, composto de estandartes costurados a mão, dando o testemunho da importância do ato artístico-criador e sua relação com a afirmação da dignidade humana. Arthur não se considerava um louco. Dizia-se, às vezes, preso político. Era sem dúvida um retrato fiel dos Severinos...).

O título SEVERINO carrega consigo duas referências: a primeira ao Rio São Francisco, que para sabermos de sua importância basta que nos recordemos de nossas aulas de geografia (que é sinônimo de vida para as populações ribeirinhas), e a segunda, à obra de João Cabral de Melo Neto, "Morte e Vida Severina".

Logo na primeira faixa nos deparamos com o conflito e a contradição, em “Não me estrague o dia” os Paralamas retomam o diálogo como narrativa musical e apresentam o embate entre o proletário e o patrão; as diferenças sociais; o antagonismo entre os privilégios e a exclusão.

Em “Navegar Impreciso”, o álbum se torna bem atual nestes dias em que se comemora os 500 anos do descobrimento do Brasil.É uma saudação aos que foram abandonados pelas naus portuguesas com a árdua missão de colonizar uma terra já habitada.
Em “Varal”, encontramos o lirismo, a poesia explícita e a sensualidade implícita, ainda na contra-mão do mercado.A música fala do amor, da vida em gestação, do homem que nasce e se torna homem,"‘rebenta a bolsa, revela ao mundo a cabeça quem a tiver que mereça a coroa".É nessa faixa que encontramos um dos mais belos arranjos dos Paralamas. Vale conferir.
“Réquiem do pequeno” contém versos que a si mesmo se explicam. É uma ode aos Severinos que, ao invés de viverem, sobrevivem com alegrias compradas a prazo.
“Vamo batê lata” é o funk da lata, é a linguagem das ruas, o ranger de dentes dos pobres diabos no inferno urbano, a nova língua de Brown no balanço funk do ônibus lotado.
Em “El vampiro bajo el sol”, uma belíssima balada de fito Paez, os Paralamas contam, como em um tango argentino, as desventuras de um vampiro debaixo do sol que diz em sua fuga desesperada:”los que me siguen no me alcanzarám”. É mais uma proclamação do amor a vida e a esperança.
“Músico” é a canção que mais fala de vida e reafirma a temática da composição do homem. A letra de Tom Zé traduz a maravilha que somos em uma visão estrutural microscópica. Diz: “cadeia de gens, somos um trem, um trem que tema ignição de ser...”
“Dos margaritas”, é um coquetel de ritmos e de idéias, é Funk, é Jazz, (e é um blues em ‘SANTORINI BLUES’, o segundo trabalho solo do Herbert Vianna), é um drink para relaxar as tensões do e as angústias do cotidiano.
“O Rio Severino”é a música mais planfetária do álbum. A narrativa em forma de diálogo da primeira faixa retorna com mais agressividade, em frases incômodas: “me diz o que você tem” (com duplo sentido); “quem não tem ABC, não pode entender HIV, nem cobrir, evitar ou ferver”; “É muita gente ingrata reclamando de barriga d’água cheia, são maus cidadãos, é essa gente analfabeta interessada em denegrir a boa imagem de nossa nação"; “és tu Brasil, ó pátria amada, idolatrada por quem tem acesso fácil a todos os teus bens.”É a radiografia de um país doente, infectado pela fome, pela corrupção, pelo descaso das autoridades, pela falta de consciência política, onde os Severinos, nordestinos, brasileiros vivem à espera da assistência que não vem, orando nas contas de um rosário que é um rio, um rio que trás a morte e a vida.
“Cagaço” é a redenção, é o ultimo despertar de quem “bateu de frente com o trem social” e quer libertar o seu pensamento burguês, é o constrangimento, o desconforto de quem tem a mania de pesar de mais.
“Quando o amor dorme” é oficialmente a única faixa romântica do álbum, uma bossa despretensiosa que fala de partidas e reencontros, de momentos e lembranças.
SEVERINO ainda conta com duas faixas bônus, “Go back” e “Casi um segundo”(esta foi considerada por Renato Russo uma das mais belas canções de nosso tempo), ambas em espanhol, pois, esquecidos, na época, pela mídia brasileira, os Paralamas já eram o principal produto cultural brasileiro exposto no mercado latino americano.
Como todos os discos dos Paralamas, SEVERINO é uma salada de ritmos, onde se encontra um pouco de tudo, do jazz, da bossa, da viola repentista, do funk, do baião, do Pop e do Rock. Eles mantém a identidade sonora da banda (ao ouvir, mesmo de relance, você sabe que são eles que estão tocando). O álbum conserva a mesma narrativa em todas as faixas. É uma unidade onde a diversidade é o ponto distintivo da essência. SEVERINO pode não ser o melhor disco do rock brasileiro, mas, sem dúvida, é um dos mais interessantes.