segunda-feira, 19 de agosto de 2013

ALÉM DOS MUROS – LIGIA SAAVEDRA, 2010 (INDEPENDENTE).





O primeiro trabalho solo da cantora, compositora e excepcional poetisa Ligia Saavedra, sintetiza neste álbum a experiência e exuberância de seu talento, gravado após longos anos de silêncio da artista. Nele Lígia desfila a beleza, a vida e a cultura da região norte do país, e canta também os amores e a sabedoria de quem viveu intensamente cada momento.

Com um repertório bastante diversificado Lígia faz uma salada rítmica, que vai dos elementos musicais da cultura paraense, ou melhor, nortista, a sambas canção, e MPB POP.

Três coisas são surpreendentes neste álbum, a bela voz de Lígia, muito bem trabalhada e de uma ternura encantadora; sua expressiva interpretação carregada de emoção e sinceridade, e; as letras, de um lirismo entorpecedor, a poesia de Lígia Saavedra é imponente, de tirar o chapéu.

O disco contou com a participação de artistas conhecidos da cena cultural paraense, como Pedrinho Cavalleiro e Alcyr Guimarães, onde Lígia Saavedra goza de grande prestigio e tem o seu lugar de destaque.

A faixa título “Além dos muros”, da autoria de Pedrinho Cavalleiro e Jorge Andrande revela as intenções do álbum: “Tomara que essa espera passe calma na janela e frutifique grão e Hera além dos muros por sobre os rumos que o meu coração sonhar.”, aqui a interprete, de longa carreira, renasce em seu primeiro registro solo, fala da espera, que na verdade é uma conquista, de sonhos e esperança, de levar sua voz e seu talento além dos muros, na verdade a imensa muralha que a indústria cultural ostenta para barrar artistas que só podem contar  com o dom  extraordinário que Deus lhe deu.

“Tem dó”, é a faixa mais impressionante, principalmente pelo belo arranjo percussivo e de cordas, o violão expressivo e cheio de swing dá tons pop a bela canção e o timbre de voz de Alcyr Guimarães, que participa da faixa, nos remete a um grande nome da musica popular brasileira: Chico Buarque de Holanda. A canção traduz o cotidiano de Belém do Pará, faz referência a lugares e costumes da cidade, expressões linguísticas e grandes vultos da cultura paraense.

“Cristais de saudades” é a canção mais pessoal do álbum, deixemos que a própria Ligia fale sobre a mesma:“Quando perdi meu filho, em  janeiro do ano passado, já tinha o compromisso de gravar um CD, agora pronto chamado ‘Além dos Muros’. Após seu falecimento as pouquíssimas palavras que conseguir escrever falam de dor e de saudade com muito ressentimento e tristeza, mas em ‘Cristais de saudades’ acendo a esperança do reencontro e relembro aquele lindo sorriso que tantas vezes me fez feliz. ‘Cristais de Saudades’, agora uma linda música composta em parceria com Pedrinho Cavallero, está no CD “Além dos Muros”, eternizando o meu sentimento e a necessidade que sinto de gritar para o mundo: ‘Filho, jamais te esquecerei.’”

Também de Pedrinho Cavallero e Jorge Andrade, ‘Cabano’ faz referencia a cabanagem, revolta popular, no período do Brasil Imperial, ocorrida na Província de Grão-Pará.

Em “Tuas mãos”, canção em parceria com Marcia Yamada e Pedrinho Cavallero, acompanhada por um envolvente solo de saxofone, Ligia esbanja, com bom gosto e longe da intenção de ser vulgar, sensualidade e erotismo: “Tuas mãos é o que me fazem sentir, estremeço só de pensar, é como desde o início tivesse um mapa do meu corpo a te guiar.”

Na faixa “Me permito”, Lígia faz uma ode ao livre arbítrio, uma canção de desprendimento, para aqueles que vivem a vida intensamente, e, não perde a oportunidade de fazer uma declaração de amor à própria existência.

Mais lirismo, romantismo e a memória afetiva popular desfilam nas demais faixas do disco, fazendo deste álbum uma obra prima que mereceu inclusive a atenção da crítica internacional de Wilbert Sostre da JazzRewiews.

Um disco de estreia, mas marcado pela experiência de uma veterana, talentosa e destemida, que soube impor o seu valor artístico e conquistar seu lugar ao sol, junto aos grandes nomes da musica do norte do Brasil.



sábado, 10 de agosto de 2013

“PAI” – FÁBIO JUNIOR, 1978.



No episódio “Toma que o filho é teu”, da série “Ciranda Cirandinha”, o ator Fábio Junior, que interpretava o personagem “Hélio”, canta pela primeira vez na televisão “Pai”, sua canção mais emblemática e que abriria as portas para sua carreira musical, com um violão e um caderno aberto a sua frente, como se estivesse acabado de compô-la, e emociona o público.
Em 1979, inspirada por esta canção, a autora de novelas Janete Clair, escreveu sua nova trama “Pai Herói” e a escolheu, para tema de abertura.
Embora boatos dessem conta de que “Pai” surgiu de uma suposta relação conflituosa entre o artista e seu genitor, Fabio Junior sempre afirmou o contrário, que a canção foi composta em um momento de grande inspiração, e fala do amor e do respeito que tinha pelo seu pai.
O pai de Fabio Junior, que se chamava Antônio, era taxista, possuía uma banca de revista onde os filhos trabalhavam. Na novela “Antônio Alves, o Taxista”, o nome do protagonista foi dado em sua homenagem e o próprio Fábio, o interpretou.
A canção em tom intimista, é repleta de amor filial, não seria de fato uma reconciliação, parece mais robustecida pelas palavras que nunca foram ditas, pelos sentimentos muitas vezes não demonstrados. Deixa a sensação do nó na garganta, e o desejo de se recuperar o tempo perdido, de amar enquanto ainda há tempo para amar.
O reconhecimento pelo amor recebido e pela experiência transmitida, e a intenção de passar segurança, de dizer que o dever de pai está cumprido, também são sentidos nos versos da canção, de uma forma pessoal e autentica.
A canção traduz sentimentos de saudade, mas não de um ente querido que se foi (o pai do Fábio Junior ainda era vivo quando este a compôs) e sim, dos momentos vividos, bons ou ruins, pois muitas vezes, numa boa relação familiar,não dá para fazer diferença.
É uma canção sincera, linda e bastante emotiva. Para ouvir com o coração voltado para aquele, mesmo em alguns casos achamos que não mereça, tem o nosso amor incondicional.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

A TEMPESTADE OU O LIVRO DOS DIAS- LEGIÃO URBANA, 1996 (EMI).


"O Brasil é uma república federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus", esta citação de Oswald de Andrade, substitui as tradicionais frases "Urbana Legio Omnia Vincit" (Legião Urbana a tudo vence) e "Ouça no volume máximo", sempre presentes em todos os álbuns da Legião, a razão da insólita mudança  só foi compreendida mais tarde com a notícia da morte do líder da banda, Renato Russo. “A Tempestade ou o livro dos dias” é a carta de despedida do maior nome do Rock Nacional dos anos oitenta.

Depressivo e melancólico, a Legião despeja tristeza, mágoa, solidão e angustia em quase todas as faixas do disco. Ainda que tente passar uma mensagem de otimismo e esperança, os sentimentos de abandono e revolta falaram mais alto na percepção criativa do compositor Renato Russo, que respinga suas dores físicas e emocionais nas canções do álbum.

 A principio a ideia era a de se fazer um álbum duplo com as canções que sobraram para o disco posterior, “Uma outra estação”, que foi lançado após a morte de Renato Russo.

O líder da legião, por alguma razão desconhecida, com exceção de em “A via láctea”, não quis gravar a voz definitiva nas faixas, ficando apenas a voz guia. Apesar de imperceptíveis as diferenças técnicas, é provável que ele tenha tido a intenção de sublinhar a canção que revelava a sua real condição de saúde. A espera da morte: “um anjo triste perto de mim”, “E quando chegar a noite cada estrela parecerá uma lágrima”; a indignação ante a falta de esperança: “ quando tudo está perdido sempre existe uma luz, mas não me diga isso.”;  a ironia ante a sensação de abandono:E essa febre que não passa, e meu sorriso sem graça, não me dê atenção mais obrigado por pensar em mim”, e a angústia revelada: “Queria ser como outros e ri das desgraças da vida ou fingir está sempre bem, vê a leveza das coisas com humor”.
Em “Dezesseis”,Renato Russo fala em tom moralista aos jovens que desperdiçam suas vidas, contando a estória  de um adolescente que morre em uma acidente suicida durante um pega.Sugere um misto de arrependimento pelos  excessos  com a tristeza e a saudade dos que ficam.
“Leila” é uma canção do cotidiano, fala do dia-a-dia de uma mulher independe que lida com seus trabalhos e cuida sozinha dos filhos, algumas sacadas do Renato Russo, dão o toque de humor que tempera com leveza o ar depressivo do disco: “E você diz daquele seu jeito:- Ai, eu preciso de um homem! - E eu digo:- Ah, Leila, eu também! -  E a gente ri.”
“Longe do meu lado”, uma parceria do Renato Russo com o legionário Marcelo Bonfá, é a mais perfeita tradução da decepção amorosa e da dificuldade de se recompor os sentimentos após uma perda afetiva. A paixão é retratada com um algoz da alma, estar apaixonado uma opção a ser evitada: “A paixão já passou em minha vida/Foi até bom, mas ao final deu tudo errado/E agora carrego em mim/Uma dor triste, um coração cicatrizado/E olha que tentei o meu caminho/Mas tudo agora é coisa do passado/Quero respeito e sempre ter alguém/Que me entenda e sempre fique a meu lado/Mas não, não quero estar apaixonado”.
“Soul Persival”, parceria do Renato Russo com a cantora e compositora Mariza Monte, demonstra ser mais uma canção psicossomática da doença terminal do Renato Russo, a dor física e sofrimento reaparecem em versos como “Estive cansado/ Meu orgulho me deixou cansado/Meu egoísmo me deixou cansado/Minha vaidade me deixou cansado/Não falo pelos outros/Só falo por mim/ninguém vai me dizer o que sentir.”
A belíssima “Quando você voltar” é a faixa redentora do álbum, o desgaste da relação afetiva que leva a brigas intermináveis se dissolve em versos de reconciliação, em meio a tanta angústia e tristeza, a esperança do amor que pode renascer é uma espécie de alívio perante a dor e a solidão: “Vai, se você precisa ir, não quero mais brigar essa noite {...} E quando você voltar tranque o portão, feche as janelas, apague a luz e saiba que eu te amo.”
Melancólico, Renato Russo se despede dos amigos e da família, em “Esperando por mim”, agradece pela solidariedade e pelo apoio, guarda os bons momentos e pede respeito pela sua memória: “Hoje à tarde foi um dia bom, sai prá caminhar com meu pai/ Conversamos sobre coisas da vida/ E tivemos um momento de paz/É de noite que tudo faz sentido/No silêncio eu não ouço meus gritos/ E o que disserem meu pai sempre esteve esperando por mim/ o que disserem minha mãe sempre esteve esperando por mim/ E o que disserem meus verdadeiros amigos sempre esperaram por mim/ E o que disserem agora meu filho espera por mim/Estamos vivendo e o que disserem os nossos dias serão para sempre.”
Em “O livro dos dias” Renato Russo, lamenta seu definhamento e espera passivo a própria morte, questiona o pecado e o preconceito, e, em seu juízo final absorve a si mesmo: “Ausente o encanto antes cultivado/ Percebo o mecanismo indiferente/ Que teima em resgatar sem confiança/ A essência do delito então sagrado/ Meu coração não quer deixar meu corpo descansar/ E teu desejo inverso é velho amigo/ já que tenho sempre a meu lado {...} O indulto a ti tomasse como benção/ Não esconda a tristeza de mim/ Todos se afastam quando o mundo está errado/ Quando o que temos é um catálogo de erros/ Quando precisamos de um carinho, força e cuidado/ Esse é o livro das flores/ Esse é o livro do destino/ Esse é o livro de nossos dias/ Esse é o dia de nossos amores”.
A grande dificuldade em falar sobre um álbum da Legião e ter que escolher trechos das canções da banda, não há verso que se possa desprezar nas letras do Renato Russo, tudo é belo, tudo é profundo e tudo se completa.
Renato Russo partiu aos 36 anos, vítima da AIDS, doença que escondeu do público até o ultimo instante, A tempestade (a doença) e o livro dos dias (onde a vida está escrita), chegaram ao clímax, agora só restou a calmaria do repouso final. Em 11 de outubro de 1996, o Brasil se tornou um país cheio de arvores e de gente dizendo adeus  ao maior poeta do Rock nacional.

A Legião Urbana a tudo vence, ouça no volume máximo!!!


quinta-feira, 11 de julho de 2013

SENTIDO - FLAVIA BITTENCOURT (SOM LIVRE, 2005).



Primeiro álbum da cantora e compositora maranhense Flávia Bittecourt, “Sentido” é uma obra prima, sendo inclusive pré-selecionado ao para o Grammy Latino e para o Prêmio Tim de Música, tendo com principal ingrediente o timbre maravilhoso da cantora.
Com participações de Dominguinhos, Renato Braz, Quinteto em Branco e Preto e do maestro Laércio de Freitas, o álbum apresenta para o mundo o lirismo e a singularidade da música feita no Maranhão ao lado de perolas da MPB, com referências marcantes de elementos da cultura popular maranhense e nordestina. Apesar disso foge ao estereótipo de ser um disco regional e folclórico, perfila-se mais ao conceito de musica do mundo, mesclando-se também a elementos da musica pop. No repertório, músicas autorais e de outros compositores como Zeca Baleiro, Josias Sobrinho, Martinho da Vila e Raimundo Macarra.
“Terra de Noel” de Josias Sobrinho, que foi incluída na trilha sonora da novela “América” da TV Globo, é um samba de altíssima qualidade, é uma espécie de autoafirmação de uma artista que está pronta para romper fronteiras, vencer com seu talento e conquistar o mundo: “Não vou tirar meu chapéu pra qualquer vagabundo, nasci na terra de Noel, sou cidadão do mundo...”
“Flor do mal”, composição de Cezar Teixeira, que é parte do repertório do cultuado “Bandeira de Aço”, do Papete, ganha ares de clássico reinventado, a doçura da voz da Flávia, reverte em sentimentalismo a rebeldia áspera dos anos da repressão. Os versos revoltosos de Cezar recebem uma atmosfera saudosista, que reforça o espírito de preservação cultural própria dos maranhenses.
“Boi de lágrimas”, de Raimundo Macarra, com tons apoteóticos, é uma esplendorosa toada de bumba-meu-boi, carregada de lirismo e emoção, uma bela lembrança do folguedo que é o ápice da expressão cultural do Estado.
“Vazio”, de autoria da própria Flávia, tensa, é do meu humilde ponto de vista a melhor musica do álbum, versos melancólicos e por que não dizer “depressivos”, descrevem a solidão de um prisma singular: “Pressinto que esse vento leve, leva algo que carrego comigo, assim como a chuva que cai e com a corrente vai e não volta mais. Pode o vazio, ser assim tão frio, e me encher de mágoa e solidão, mas eu preciso sair desse abismo e me esvaziar de vez de tanta escuridão.”
Também de autoria da Flávia, “Sentido”, a faixa titulo do álbum, parece antagonizar “Vazio’, com versos carregados de otimismo e esperança, o lirismo vence a dor e desespero ante ao caos, o sentimento é de pura liberdade: “O que posso encontrar se aqui bem depois do mundo eu voar, talvez ainda fosse estar a vida de quem não sabe voltar e se achar.Todo pensamento leva nada e mais sem razão talvez seja ilusão que o escondido não pode ter sentido como uma canção. O que quero encontrar se aqui bem depois do mundo eu olhar, sei que ainda vai pulsar a força que sempre resta pra buscar e se achar.”
“Estrela do Mar”, também conhecida pela preciosa interpretação de Maria Bethania, conta a estória do amor impossível ou quase, entre um grão de areia da praia e uma estrela do céu, é emoção pura.
Destaque também para “Canto de Luz”, de José Pereira Godão, que traz para o álbum a magia dos toques de caixa da festa do divino, memória emotiva da religiosidade maranhense.
“Sentido”,é um daqueles álbuns que a cada faixa nos enche de emoção e sentimentos variados, a gente ouve e acredita, que tudo sim pode ter sentido como uma canção.

AS AVENTURAS DA BLITZ 1, 1982 (EMI-ODEON).




O apresentador Flávio Cavalcante, em rede nacional, parte um disco de vinil ao meio, joga na lixeira, e esbraveja “lixo, uma porcaria, isso não vale nada!”, tudo diante da banda que acabara de se apresentar: jovens com roupas coloridas e penteados esquisitos. A atitude, que nos parece bizarra hoje, fazia parte de um quadro do programa do apresentador; a Banda era a “Blitz”, formada por Evandro Mesquita, guitarra e voz; Fernanda Abreu e Macia Bulcão, vocais; Ricardo Barreto, guitarra; Antônio Pedro Fortuna, baixo; William “Billy”, teclados; e Lobão, bateria, substituído mais tarde por Juba, jovens cariocas recém saídos da trupe do “Circo voador”, alguns eram ex-integrantes do grupo revolucionário e despojado “Asdrúbal trouxe o trombone”, que tinha no elenco gente como Regina Casé, Luis Fernando Guimarães e Patrícia Pillar, e; o álbum era “As Aventuras da blitz 1”, primeiro trabalho da Banda. 
O que o Flávio Calvancante, que tinha como missão destruir midiaticamente as novas revelações da música, não sabia era que ali diante de seus olhos e despedaçado em suas mãos estava a semente, o embrião, do que seria o conceito de cultura pop e comportamento jovem que permearia no Brasil durante toda a década de oitenta.Contudo, a semente germinou, a “Blitz” se tornou um sucesso estrondoso, seria a referencia do “NEW WAVE”, ou “Nova Onda”, movimento que ditava o comportamento e a maneira de vestir dos jovens dos anos oitenta, e embalava as festinhas com o rock “mamão com açúcar”, e por outro lado, abriu as portas do mercado fonográfico para as bandas que já existiam e deram origem ao movimento Rock Brasil 80. Um medíocre ato de repressão foi o estopim da revolução musical que tomou conta do país na década de oitenta.

O álbum, que espantou e agradou a juventude de cara, tinha o gosto da novidade, a “Blitz” era diferente de tudo o que já se havia ouvido até então. Uma nova linguagem, um novo estilo musical, uma nova pegada e uma forma totalmente diferente de se escrever canções. As letras continham narrativas, contavam estórias, falavam de aventuras amorosas e picardias adolescentes, com linguagem teatral, dramatizavam as situações, havia diálogos dos personagens, etc.

As faixas “Você não soube me amar”, que narra um encontro casual entre um casal apaixonado que discute sobre batatas fritas e chopp e, “Mais uma de amor (Geme- geme)”, foram sucessos instantâneos. As faixas “Ela que morar comigo na lua” e “Cruel, cruel, esquizofrênico blues”, foram barradas pela Censura Federal, esta ultima por causa de um trocadilho com o “peru de natal”. O LP chegou nas lojas com as duas faixas inutilizadas por cortes de laminas. 
O fato é que a Blitz fez sua história acontecer e fez acontecer a história do rock nacional. Questões qualitativas a parte, foi uma das mais importantes bandas do Rock Nacional Oitenta, seu sucesso foi tanto que rendeu um especial na Globo: “Blitz contra o gênio do mal (1984), ” e até álbum de figurinhas. Toma Flávio Cavalcante!!!

sexta-feira, 5 de julho de 2013

BAIANO & NOVOS CAETANOS, 1974 (SOM LIVRE).



Os anos de chumbo da ditadura militar e a explosão do Tropicalismo. A arte silenciada, amordaçada pela censura e a arte, extravagante, irreverente, escandalosa e constrangedoramente nacionalista dos tropicalistas em meio a farsa do milagre econômico que maquiava a miséria dominante nas terras tupiniquins, criaram a atmosfera perfeita para o surgimento da dupla virtual (embora pouco usual, a palavra virtual já existia antes da internet) Baiano & Novos Caetanos, composta por Baiano e Paulinho Boca de Profeta, personagens interpretados respectivamente por Chico Anísio e Arnauld Rodrigues, criados para um quadro do humorístico da Globo “Chico City”. O cantor Caetano Veloso e os Novos Baianos serviram de inspiração para criação dos dois personagens.

A ideia a principio era fazer uma sátira ao movimento tropicalista, que com seus conceitos, retórica, estética, manifesto, impressões e avalanches pós-modernistas, descarrilava tornando-se o óbvio, a peça fora da engrenagem absorvida pelo sistema, saturava-se por não sobreviver aos seus próprios dogmas. Então voltam-se para si os estereótipos, os quais criticava, dos quais eram também uma relevante parcela.
A dupla embarca no tropicalismo do tropicalismo, autocrítica do movimento vinda de fora, ou de dentro, sei lá, depende do ponto de vista, se existir mais de um. Os trejeitos, o figurino, o palavreado, os cacoetes, os silogismos dos expoentes da tropicália eram um prato cheio para os dois humoristas que engrossavam o caldo com a sátira política metafórica própria para os ares de uma ditadura.
O álbum de 1974, da dupla, é um disco politizado, engraçado e de uma sonoridade surpreendente, bonita e inovadora. Foi além da piada, virou coisa séria. Com pegada que varia do Samba-rock à música rural, carregado de brasilidade, o som viaja pelas origens de nossa musicalidade, visita nossas veias culturais. É um tropicalismo acidental.
Em “Vô batê pa tu”, com participação do personagem do Chico Anísio “Coalhada”, que meio perdido pergunta: “o que que eu tô fazendo neste disco”, a faixa de abertura, cheia de efeitos sonoros, de uma plateia virtual (de novo), toca na feridas dos dedo-duros, gente do meio artístico e intelectual, que entregavam os colegas que não andavam na linha da ditadura, a “entregação com dedo de veludo”; em “Urubu tá com raiva do Boi” o alvo foi o “milagre econômico brasileiro” que era a vedete do regime militar, sintetizada no discurso Delfiniano: “O povo vai mal, mais o pais vai bem”.
“Cidadão da mata”, canção politicamente correta com mensagem ecológica, encerra-se no discurso ativista: "Amo, amo a mata! Porque nela não há preços. Amo o verde que me envolve... o verde sincero que me diz que a esperança, não é a ultima que morre. Quem morre por último é o herói. E o herói, é o cabra que não teve tempo de correr..."
“Dendalei”, com arranjos de flauta que nos remetem aos bang-bangs italianos, faz critica ao conservadorismo e ao conformismo: “ Do que eu vi, muito gostei, tudo perfeito de mais, dendalei, dendalei. Sou fã desse meu firmamento, sou fã da roda em que entro, sou fã do velho testamento”.
Sarcásticos, visionários e criativos, assim eram Baiano e Paulinho Boca de Profeta, ou melhor, Baiano e Novos Caetanos.


quinta-feira, 4 de julho de 2013

RACIONAL, VOL.1-TIM MAIA, 1975 (SEROMA).



Produção independente do Tim Maia é o Quinto álbum do cantor. Gravado quando o Tim estava em sua melhor fase, com sucesso na mídia, amadurecendo como artista, na melhor forma de sua qualidade vocal. Este álbum e seu sucessor o “Racional, Vol.2”, no formato vinil, alcançaram o status de raridade, procurado por fãs e colecionadores em todo o mundo.

Edição para lá de limitada, a excelente qualidade musical do trabalho e a história mística que envolve sua produção contribuíram para que “Racional, vol.1” tivesse tamanha notoriedade atualmente, embora não tenha tido uma vendagem expressiva a época de seu lançamento.
As bases já estavam gravadas desde junho de 1974, antes mesmo do Tim pensar o “Racional,Vol.1”, o que só aconteceu após a “revelação”: com a vida desregrada e envolto com drogas Tim Maia, colocava em risco seu desempenho vocal, foi quando por acaso se deparou com o livro, “O universo em desencanto”, doutrina da Cultura Racional, seita fundada por Manoel Jacintho Coelho, que difundia a crença que seus fieis seriam resgatados por discos voadores e levados para o “Mundo Racional”, para isso o fiel teria que se desmagnetizar,através da imunização racional, que se conseguiria lendo os livros do universo em desencanto.
Adepto da “Cultura Racional” Tim Maia se afastou das drogas, do cigarro e do álcool, converteu forçosamente todos os integrantes da banda “Vitória Régia” a sua nova religião, e, tornou-se o grande veículo de divulgação do “Universo em desencanto”, para a alegria do Sr. Manuel Jacinto, que teve um aumento considerável no saldo de sua conta bancária, com o crescimento de sua seita, motivado pela presença Tim e outras celebridades que este convidava só para conhecer.
Ao entregar o novo trabalho à RCA, gentilmente pediram que outra proposta fosse apresentada. Um disco doutrinário, envolvimento com uma seita desconhecida, grande chances de fracasso de vendas, eram problemas que a gravadora não desejava enfrentar. Tim comprou as fitas com as gravações da base e criou o seu próprio selo, o SEROMA, nome extraído das iniciais de seu nome de batismo, Sebastião Rodrigues Maia, e lançou de forma independente o seu novo trabalho.
Quando finalmente Tim Maia se desencantou com o “universo em desencanto”, retirou os Racionais, vol. 1 e 2, de circulação, tornando-os mais raros ainda até o lançamento em CD, em 2006. 
Deep-funk, Samba-soul, gospel-funk, reggae-suol, metais carregados, arranjos bem elaborados e a voz ‘recuperada’ do Tim, deram o tom da sonoridade desse trabalho.
Com algumas adaptações na letra a canção “Que beleza” ganha o subtítulo “Imunização racional”, e versos como: “Que beleza é saber seu nome, sua origem, seu passado e seu futuro, que beleza é conhecer o desencanto e ver tudo bem mais claro no escuro...”
Em “O grão mestre varonil”, Tim Maia, à capela, saúda seu guru da Cultura Racional: “ O grão mestre varonil, Manuel, o maior homem do mundo, homem sábio e profundo, semeou conhecimento, missionário da pureza, fez brilhar ó que beleza essa nova geração.”
Em “bom senso” Tim Maia faz o seu ato de contrição e narra sua conversão a Cultura racional: “Já virei calçada maltratada e na virada quase nada me restou a curtição, já rodei o mundo, no entanto num segundo este livro veio a mão...”
O que seria uma balada romântica vira uma espécie de peça publicitária em “Leia o livro o universo em desencanto”, na faixa “O universo em desencanto”, Tim Maia despeja com fervor a doutrina da cultura racional.
Nas faixas “You Don't Know What I Know” e “Rational culture”,Tim Maia desfila seu inglês perfeito e interpreta com a voracidade de cantor gospel do Harlem, era Tim Maia sendo um autentico homem de religião. 

Texto: Penha de Castro.
Referência bibliográfica: “Vale tudo, o som e a fúria de Tim Maia”, de Nelson Motta.